A expressão que dá título a esta página — "um governador para ser somente seu" — evoca uma reflexão profunda sobre a natureza do poder político no Brasil, e em particular no Distrito Federal. Remete à figura do governante que, uma vez eleito, se isola em seus próprios interesses, ou de um círculo restrito, esquecendo que o mandato é uma concessão temporária da sociedade, uma confiança depositada para realização do bem comum, e não um feudo a ser explorado em benefício próprio.
No Distrito Federal, onde a política frequentemente se confunde com o jogo de interesses de grandes grupos econômicos e da máquina pública estufada, o risco do governante "ser somente seu" é ainda mais agudo. A capital da República, vitrine do país, exige de seus gestores uma responsabilidade dobrada. No entanto, o que se vê com frequência são administrações que tratam o terceiro maior orçamento do país como uma extensão de suas contas pessoais, negligenciando áreas fundamentais como saúde, educação e mobilidade urbana.
As eleições no DF são um termômetro constante desse fenômeno. Promessas de campanha viram moeda de troca para angariar apoio. O sufrágio popular é convertido em cargos e benesses para aliados. A gestão pública se transforma em um palco para o personalismo, onde o governador busca se perpetuar no poder, não por meio de realizações concretas, mas pelo controle da máquina e dos recursos do Estado. A recente história política do DF é farta de exemplos em que a linha entre o público e o privado foi deliberadamente apagada.
Isso não é apenas um problema moral ou ético; é um desastre administrativo com consequências diretas na vida do cidadão. O morador de Taguatinga, Ceilândia, Planaltina ou Sobradinho sente na pele o abandono. A ausência de políticas públicas efetivas, a falta de infraestrutura básica e o caos no transporte público são sintomas de uma gestão orientada para si mesma. A "cidade sem lei", sobre a qual já escrevemos, é um reflexo dessa lógica perversa: quando o governante só escuta seus próprios interesses ou os de seus financiadores, a cidade real, com suas demandas urgentes, fica sem voz.
O conceito de um governador "para ser somente seu" dialoga diretamente com a narrativa do "nós contra eles". O governante se coloca como um salvador pátrio, acima do bem e do mal, enquanto trata a imprensa, o judiciário e a sociedade civil organizada como obstáculos a serem superados. É uma estratégia política poderosa, mas profundamente antidemocrática. Ela fragiliza as instituições, desrespeita a separação dos poderes e cria um ambiente de hostilidade que inviabiliza o diálogo e a construção de consensos, necessários em uma sociedade complexa como a brasiliense.
A saída para este impasse, contudo, não reside apenas na denúncia. É preciso fortalecer a cultura de participação popular e os mecanismos de controle social. Conselhos comunitários, audiências públicas, orçamento participativo e uma imprensa livre e combativa são antídotos contra o arbítrio e o personalismo. O voto consciente é o ponto de partida, mas a vigilância cotidiana e a ocupação dos espaços de poder são deveres permanentes de quem acredita que a política pode — e deve — ser feita para o coletivo, e não para um único homem, grupo ou família.
Que a frase que nos trouxe até aqui sirva como um alerta permanente. Como sociedade, temos o direito e o dever de recusar qualquer governante que queira ser "somente seu". Exigir líderes comprometidos com o bem comum, com a justiça social e com o desenvolvimento humano é a luta diária da verdadeira cidadania. Neste espaço, seguiremos acompanhando, refletindo e denunciando, na certeza de que a informação e o debate são as melhores ferramentas para a transformação social.