Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.
A partir de uma estrofe do célebre poema Os Escravos de Castro Alves inicio as postagens, onde juntos, eu e os nobres leitores/blogueiros, construiremos aqui neste espaço uma visão crítica da sociedade brasileira. O poema em questão apesar de sua temporalidade se situar no século XIX, podemos tê-lo, metaforicamente, com a realidade vivida hodierna pela sociedade periférica brasileira. Bosi em sua obra História concisa da Literatura Brasileira coloca que "A sua estréia (A do poeta Castro Alves) coincide com o amadurecer de uma situação nova: a crise do Brasil puramente rural; o lento mas firme crescimento da cultura urbana, dos ideais democráticos e , portanto, o despontar de uma repulsa pela moral do senhor-e-escravo, que poluía as fontes da vida familiar e social no Brasil-Império." Esse era o momento histórico daquele período: a luta pela cidadania dos escravos e que ,não se encerrou com a abolição da escravutura ,aliás ouso dizer que ali se iniciou todo uma ideologia na busca da construção de uma identidade própria do povo brasileiro e para a formação do ideário da cidadania que se consolida em 1988 com a promulgação da carta cidadã.
A busca pela preservação e consolidação dos direitos e garantias fundamentais do homem não se encerra apenas na produção legiferante. A manutenção e permanência destes como cláusulas pétreas do ordenamento em prol do cidadão passa por suplantar óbices como interesses econômicos, grupos conservadores e elitistas e a compreensão, elucidação e superação dos preconceitos que permeiam a sociedade. A escravidão não era apenas uma prática desumana, era parte inerente do sistema mercantilista e acumulador de capitais. Era sustentado por teorias cientifícas que vislumbravam os nativos africanos como animais inferiores. Era corroborado pela igreja. Então vejam que não é o simples desejo de mudar que fazem as coisas acontecer. É um projeto gradual que deságua na transformação da sociedade, revolve interesses , e traz resultados a longo prazo.
Nosso país tem se tornado uma democracia a duras penas. Mas não pensem que os escândalos são ruins ,não . Servem de alerta para fiscalizar, delatar e reconstruir ou reformar nossas instituições e nossos posicionamentos.
Como nos versos acima a seara vermelha cresce, cresce. A cidadania é feita a sangue, suor e lágrimas. É construida a cada dia, reconstruida, reformada, reformulada e, muitas vezes, derrubada, mas não destronada porque está em cada homem o desejo de ser um ente preservado em sua inteireza social.
Abraços a todos
Roner Gama
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