Racismo:a desconstrução da cidadania

O racismo é o meio mais abjeto de demonstrar a não aceitação do outro.Li abismado ,nos jornais de domingo, que três estudantes de medicina agrediram física e moralmente, no sábado pela manhã ,um senhor de 55 anos .Segundo a imprensa os jovens o agrediram com um tapete enquanto o chamavam de negro.Tal fato se deu na cidade de Ribeirão Preto,interior de São Paulo.

Há poucos dias vimos também o caso de uma jovem que foi vilipendiada dentro de uma faculdade por causa de um vestido sensual.

Observe-se nos dois casos que foram fatos envolvendo jovens universitários.Aí me pergunto:O que tem sido ensinado a esses jovens em casa e nas universidades?Com certeza está longe de ser a cidadania.Os ensinamentos familiares e escolares se complementam.Falta um e outro.Se não houve a devida atenção em casa em cima de valores mínimos de respeito e aceitação ao próximo dificilmente a escola poderá convencê-lo do contrário.Uma frase de Coelho Neto nos revela o que herdamos dos nossos pais :É na educação dos filhos que se revelam as virtudes dos pais.

A escola pós moderna não mudará conceitos enraizados porque ela é formada,muitas das vezes, por pessoas com a mesma distorção em sua formação.Em nosso país tem-se confundido educação com diploma.Ter um diploma não significa necessariamente que houve uma boa educação.Tal fato é corroborado pela atuação infame de nossos jovens nos recentes atos de preconceitos contra uma mulher e um homem de pele negra.

Duvido que essas milhares de faculdades espalhadas pelo país tenham um minimo de preocupação com a formação humanística desses jovens.Há muito que o ensino da filosofia tem sido relegado a segundo plano.A literatura é vista como um fardo.A escola e a família devem levar o jovem a construir,sobre os antigos pilares,uma sociedade mais justa ou no mínimo melhor do que a geração anterior.Mas , infelizmente ,o que se vê é o apogeu da violência e incultura.

Deixo aos meus leitores o poema açúcar do poeta Ferreira Gullar para que reflitam sobre a condição do "outro".

O Açúcar (Ferreira Gullar)

O branco açúcar que adoçará meu café

Nesta manhã de Ipanema

Não foi produzido por mim

Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro

E afável ao paladar

Como beijo de moça, água

Na pele, flor

Que se dissolve na boca. Mas este açúcar

Não foi feito por mim.

Este açúcar veio

Da mercearia da esquina e

Tampouco o fez o Oliveira,

Dono da mercearia.

Este açúcar veio

De uma usina de açúcar em Pernambuco

Ou no Estado do Rio

E tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana

E veio dos canaviais extensos

Que não nascem por acaso

No regaço do vale.

Em lugares distantes,

Onde não há hospital,

Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome

Aos 27 anos

Plantaram e colheram a cana

Que viraria açúcar.

Em usinas escuras, homens de vida amarga

E dura

Produziram este açúcar

Branco e puro

Com que adoço meu café esta manhã

Em Ipanema.

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